Nem tudo precisa render

Nem tudo precisa render
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Tem dias que eu percebo como tudo na minha rotina precisa ter uma função, principalmente o tempo livre. Parece que nada pode simplesmente existir. Tudo precisa servir pra alguma coisa.

Ler vira “crescimento”, correr vira “planilha pra performance”, inglês vira “alavanca de carreira”. Até descansar precisa ter propósito, com horas contadas no smart watch, como se o único descanso legítimo fosse aquele que te deixa pronto pra produzir mais depois.

Confesso que eu mesmo caio nisso as vezes. A corrida começou como saúde e virou planilha. Pace, frequência, longão progressivo, estratégia pra não quebrar no km 15, cobrança dos treinos da assessoria de corrida. O inglês começou como vontade de falar um segundo idioma e virou meta, rotina, consistência diária e necessidade corporativa. Livros virou lista, ranking, ordem estratégica de leitura.

Eu sou uma pessoa que gosto de estrutura, gosto de ver evolução, gosto de ver e medir progresso, acho que funciono melhor assim. Mas quando o resultado vira a única justificativa, alguma coisa fica vazia. Falta aquela vontade de fazer só porque quer.

Recentemente eu comecei uma coleção de vinil, já comprei mais de 60 sessenta discos. Jazz, MPB, umas apostas meio duvidosas que comprei por curiosidade. Tem disco que eu estudei preço, comparei prensagem, pensei em revenda. Mas a maior parte do tempo eu só coloco pra tocar. Fico sentado olhando a capa enquanto a música rola. Redescobri como escutar música, posso afirmar que é muuuuito diferente do que simplesmente ligar o Spotify e ir fazer outra coisa.

O fato é que ninguém nunca me perguntou “qual o retorno disso?” ou o que você vai ganhar com essa “velharia”?

Mas quando falo que faço aula de inglês quase todo dia, a pergunta sempre aparece “é pro trabalho?”. Às vezes é, muitas vezes não. Às vezes é só porque eu gosto de praticar. Não tem meta de fluência com prazo, é apenas curiosidade e vontade de aprender um segundo idioma. E curiosidade, sozinha, já me serve.

O mesmo vale pro Home Assistant, pro homelab, pro xadrez. Tem coisa ali que resolve problema real, automatizar luzes, ar condicionado, facilitar a vida. Mas tem muita coisa que é só prazer de mexer. Aquela engenharia de fim de noite que começa simples e termina com você reiniciando servidor às duas da manhã torcendo pra dar boot e voltar a rodar sem ter que reinstalar tudo. Não é eficiência, é simplesmente prazer pela tecnologia.

Se não ajuda na carreira, no dinheiro, na saúde… em alguma coisa “útil”, parece desperdício, mas as vezes é só parte da vida mesmo.