Tudo é Rio (e quase nada aprofunda)
- 23 de janeiro de 2026
Terminei de ler Tudo é Rio da Carla Madeira. Recebi essa indicação de uma amiga, fui pesquisar sobre o livro, vi várias críticas extremamente positivas, gente falando que era “belíssimo”, “impactante”, “de tirar o fôlego”, aí fiz besteira, criei expectativa.
Minha mulher já tinha me avisado que tentou ler e desistiu, disse que não prendeu, que largou no meio. Eu ainda não cheguei no desprendimento de abandonar livros no meio do caminho, talvez aqui outro erro, pois fui até o fim e sim, me decepcionei.

O livro aborda prostituição, violência doméstica, abuso, dor, miséria emocional. Isso existe. Existe muito mais do que a gente gosta de admitir. Não me incomoda livro pesado, nem história desconfortável. O problema é que tudo é raso. Esse rio não teve a profundidade que o tema merecia sustentar.
São temas complexos, mas tratados de forma superficial. O livro encosta nos assuntos, solta uma frase de efeito e segue adiante. Não sustenta, não enfrenta o que ele mesmo coloca na mesa.
Na minha cabeça, se você escolhe trazer temas desse tamanho, precisa bancar até o final. Precisa tratar com a seriedade e a profundidade que eles exigem. Aqui ficou a sensação de que poderia ter sido um baita livro, mas não foi.
A escrita tenta ser poética o tempo todo. Parece que cada frase foi pensada pra causar impacto, metáfora atrás de metáfora, água, rio, correnteza, fluxo, dor líquida, sofrimento que escorre. Pra mim ficou muito forçado. Clichê, agua com açúcar, faz com que a beleza do texto morra no excesso.
Os capítulos são muito curtos e a leitura acaba ficando fragmentada demais. A linguagem tenta misturar impacto, poesia e choque, mas em vários momentos isso mais atrapalha do que ajuda.
Dalva e Venâncio não funcionam como casal, não há química, e os diálogos muitas vezes são confusos. As relações entre os personagens exigem um esforço extra do leitor, sem que isso gere profundidade em troca.
No fim, Tudo é Rio é uma obra pensada mais para causar impacto e comoção do que para provocar reflexão real. Os temas são grandes, mas o tratamento é raso.