O trabalho nunca foi só código

O trabalho nunca foi só código
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Hoje completo 16 anos atuando na AI/R. Nesse tempo já vi a companhia se reinventar pelo menos umas cinco vezes, sempre acompanhando as mudanças da tecnologia. Atuo com desenvolvimento de software desde 2003 e isso me fez parar pra refletir sobre os ciclos que já atravessei, promessas de transformação e mudanças reais no jeito que construímos software. Esse momento atual, com IA pra todo lado, é mais um desses ciclos. Ok, não é só mais um. É de longe o mais transformador e impactante de todos.

É praticamente impossível falar de desenvolvimento de software sem cair na discussão sobre IA. Quantas linhas de código ela gera, quanto tempo economiza, quantas pessoas “substitui”. Esse tipo de debate é compreensível, mas ele já nasce olhando para o lugar errado.

Depois de tantos anos atuando com desenvolvimento de software, a sensação que tenho é que a IA não está mudando a essência do trabalho. Ela está mostrando de uma forma aberta e clara o que sempre foi frágil no nosso jeito de construir software.

O mercado sempre gostou de métricas fáceis. Linhas de código, velocity, story points, commits. Lembra dos “pontos de função”? Então.. A IA só deu uma sobrevida a esse impulso, agora com gráficos mais bonitos. Mas produtividade é muito diferente de quantidade ou volume. O que muda o ponteiro é produto melhor, menos retrabalho, decisões técnicas mais conscientes, times menos reativos e mais questionadores. Isso continua sendo verdade com ou sem IA.

O que de fato muda é onde o esforço humano passa a fazer diferença. Codar nunca foi a parte mais difícil. Difícil é decidir o que codar, por que codar, quando não codar. Semana passada em um papo de bar com alguns amigos falamos que podemos construir qualquer coisa, lançar produtos em apenas 1 semana. A IA acelera execução, mas não substitui a percepção e julgamento de quando e o que fazer. Pelo contrário, ela aumenta o custo de decisões ruins. Errar rápido ficou barato, mas corrigir decisões mal pensadas no ambiente corporativo continua caro.

Vejo também muita ansiedade sobre redução de times. Mas já vimos partes desse filme antes.. Sempre que uma tecnologia torna algo mais eficiente, o uso total tende a aumentar. Com IA a capacidade de explorar ideias, hipóteses e soluções cresce absurdamente. Isso resulta em mais produto, mais testes, mais experimentos, mas também muitas vezes mais complexidade organizacional. O gargalo deixa de ser produção de código e passa a ser alinhamento, arquitetura, visão de longo prazo e gestão.

Nesse cenário o papel de liderança técnica muda bastante, requer menos controle de detalhe, menos revisão linha a linha, mais definição de padrões, mais cuidado com limites e princípios. O tech lead deixa de ser o “melhor programador da sala” e passa a ser quem ajuda o time a fazer boas perguntas, interpretar respostas e tomar decisões coerentes dentro de um contexto maior. Sim, o tech lead mais do que nunca agora precisa entender business, entender o impacto no negócio que cada implementação do seu time irá trazer.

Arquitetura volta a ganhar relevância. Não como diagramas bonitos, mas como instrumento de decisão. A IA gera soluções plausíveis o tempo todo, faz tudo sempre funcionar. Mas será que essa impkementação conversa com a arquitetura? Aqui é o filtro que separa o plausível do sustentável. A empresa não tem isso vira refém de soluções que funcionam hoje e custam caro amanhã, só que agora em escala muito maior.

Outro ponto pouco falado é maturidade. IA não nivela times por cima automaticamente. Ela amplifica o que já existe. Times maduros ficam mais rápidos e consistentes. Times imaturos ficam mais rápidos em produzir desalinhamentos. A diferença não está na ferramenta, mas na clareza de processos, critérios de qualidade e responsabilidade técnica.

O mercado vai seguir menos obcecado por “quanto código foi gerado” e mais atento a quem consegue transformar essa capacidade em produto de verdade. Empresas que souberem usar IA para reduzir ruído, aumentar clareza e fortalecer decisões vão se destacar. As outras só vão entregar mais rápido as mesmas dores de sempre.

No fim a IA não diminui a importância das pessoas, ela aumenta. Porque quando executar fica fácil, pensar certo vira o ativo mais escasso.