A Leste do Éden de John Steinbeck
- 9 de fevereiro de 2026
Terminei ontem a leitura de A Leste do Éden de John Steinbeck. É um livro grande, mas curiosamente a leitura não é massante. Pelo contrário. A história vai se abrindo aos poucos, como se tivesse paciência com o leitor.

Logo no começo, Steinbeck deixa claro o pano de fundo de tudo que é a história bíblica de Caim e Abel, basicamente tudo nasce daí. A Leste do Éden é uma releitura moderna dessa ideia. Somos responsáveis uns pelos outros? Somos reféns do que somos, do que herdamos, do que fizeram com a gente? Ou existe escolha?
A história acompanha duas famílias, os Hamilton e os Trask, mas é nos Trask que o paralelo com Caim e Abel fica bem escancarado. E não só uma vez. Steinbeck repete esse conflito em gerações diferentes, quase esfregando na nossa cara que isso não é coincidência, é parábola. Charles e Adam. Caleb e Aron. C e A. Não tem muita sutileza aqui.
Steinbeck apanha bastante da crítica literária. Dizem que ele é simples demais, direto demais, “fácil” demais. Eu gosto justamente disso. A escrita dele é limpa, sem firula. Não tenta parecer mais inteligente do que é. E ele descreve lugares como poucos. Mesmo com essa escrita simples, os personagens são bem complexos. Eu nunca sabia direito pra quem torcer. Isso, pra mim é sinal de personagem bem escrito.
No centro da história estão Adam Trask e Samuel Hamilton. Adam vem do Leste, deixa o irmão Charles pra trás e carrega uma culpa que nunca se resolve. Ele se casa com Cathy. Cathy não é ambígua, ela é má. Ponto. Steinbeck não tenta salvar ela em nenhum momento. Ela é quase o retrato do mal e ainda assim funciona.
O livro vai seguindo meio sem pressa. Personagens entram, saem, morrem, desaparecem. Tem subtrama que parece importante e depois some. Isso me incomodou um pouco. Tem coisa ali que dava pra cortar fácil. O livro poderia ser menor sem perder força. Mas ao mesmo tempo, essa estrutura meio solta combina com a ideia central. A vida não é organizada. As pessoas não fecham arcos bonitinhos. Algumas simplesmente passam pela nossa vida e pronto.
O livro é bem brutal em vários momentos. Violência física, psicológica, suicídio, assassinato, abuso. E sexo. Mais explícito do que eu esperava pra um livro publicado em 1952.
Outro ponto que me incomodou foi o narrador. Ele diz que reconstrói a história a partir de diários, relatos, memórias. Ok. Mas em alguns momentos ele sabe coisas que não teria como saber. Isso me tirou um pouco da imersão. Mesmo assim, o livro funciona. Porque no fundo ele fala de algo muito simples e muito humano, escolha.
A ideia de timshel. Você pode. O passado pesa, machuca, marca, mas não determina tudo. O livro inteiro gira em torno disso. Pessoas feridas podem curar. Ou podem endurecer. Podem repetir o ciclo. Ou quebrar ele.
Tem uma ideia que ficou muito comigo, os mais feridos também são os que mais tem capacidade de curar. Mas nem sempre escolhem isso. As vezes o coração machucado não cicatriza, vira indiferença.
Apesar de toda a maldade, violência e cinismo, o livro não é só desgraça. Tem esperança ali, meio torta, mas tem. Amor aparece como algo frágil e perigoso. Amar te deixa vulnerável, mas também te da escolha.
No fim, acho que o que mais gostei em A Leste do Éden foi exatamente isso, a ideia de que a gente não é só o que fizeram com a gente. A gente é, em alguma medida, o que escolhe fazer depois e sempre da pra mudar essa escolha!
Livro grande, as vezes excessivo, mas muito humano e bem escrito. Recomendo!