Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
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Memórias Póstumas de Brás Cubas é um daqueles livros cuja importância é indiscutível. A inovação narrativa, a qualidade da escrita e a ironia fina de Machado de Assis seguem atuais, mesmo mais de um século depois. Ler Brás Cubas é entrar em contato com um autor que entende profundamente o comportamento humano, os jogos sociais, a vaidade e a hipocrisia travestida de moral.

A premissa é genial. Brás Cubas decide escrever suas memórias depois de morto, quando já não precisa agradar ninguém e teoricamente pode dizer a verdade com mais liberdade. Esse ponto de partida da margem para uma narrativa cheia de comentários diretos ao leitor, interrupções, digressões e um humor que muitas vezes é bem amarrado. Há passagens que sozinhas já justificariam a leitura do livro.

Para além da história propriamente dita, o que mais me chamou atenção foi a crítica a sociedade carioca do século XIX. Machado expõe o jogo das aparências, o peso da opinião pública na vida privada, o oportunismo político e a ideia de que o dinheiro é capaz de comprar quase tudo, inclusive a moral. A criação do Humanitismo, na figura de Quincas Borba, funciona como uma ironia afiada às teorias cientificistas da época, especialmente à leitura social da teoria da evolução de Darwin, transformada aqui em justificativa para a lei do mais forte.

Ainda assim, apesar de admirar profundamente a escrita e a inteligência do livro, a história central não me cativou tanto quanto eu esperava. Fui criando a expectativa de um protagonista mais interessante, mais intenso. No início Brás Cubas parece se desenhar como um bon-vivant típico do século XIX, rico, despreocupado e um tanto cínico. Mas ao longo da leitura, a sensação que ficou foi a de uma vida relativamente previsível e em certos momentos, até um pouco chata.

O romance entre Brás Cubas e Virgília, que ocupa boa parte da narrativa, não me pareceu especialmente interessante. A relação existe, mas não evolui de forma a gerar grande impacto emocional. Em vários trechos, confesso que senti vontade de avançar alguns parágrafos.

No fim fiquei com a impressão de que a força de Memórias Póstumas de Brás Cubas está muito mais na forma do que no conteúdo. A escrita é brilhante, divertida e inteligente. A crítica social é afiada e continua fazendo sentido hoje. Já a história em si, não me marcou tanto quanto eu esperava.

Não acredito que este seja um livro adequado para ser ensinado nas escolas. A leitura exige maturidade, repertório e paciência. A linguagem carrega estruturas e usos do idioma que já não fazem parte do nosso cotidiano, o que torna a compreensão ainda mais difícil para leitores muito jovens.

As escolas deveriam instigar o hábito da leitura com livros mais simples, de entendimento direto, capazes de despertar curiosidade e prazer. A leitura precisa vir antes como desejo, não como obrigação. Forçar clássicos densos cedo demais costuma gerar o efeito oposto, afastar.

Por mais que eu veja esta obra com ótimos olhos, ela não é para qualquer leitor, muito menos para adolescentes. Na minha época de escola, Memórias Póstumas de Brás Cubas era leitura obrigatória na disciplina de literatura, e o trauma é grande para muitos até hoje. É quase como tentar ensinar cálculo diferencial e integral para alunos do fundamental, tem conteúdos que exigem maturidade para serem absorvidos. Este livro é um deles.

Ainda assim, é Machado de Assis. E só isso já é motivo suficiente para ler, no tempo certo. Mesmo quando não nos captura completamente, ele provoca, incomoda e faz pensar. E poucos autores conseguem fazer isso com tanta elegância e ironia.